• Josué E. Möller

A história de José e seus irmãos



A leitura da bela história de “JOSÉ E SEUS IRMÃOS” foi concluída há alguns dias e continua a reverberar em lembranças, pensamentos e reflexões. A tetralogia escrita por Thomas Mann ao longo de 16 anos divide-se originalmente em quatro livros intitulados: “A história de Jacó”, “O jovem José”, José no Egito”, e “José, o provedor”, publicados no Brasil pela Editora Nova Fronteira em três volumes que alcançam 1761 páginas. Não se trata de um texto para leitura rápida, mas daqueles que para serem apreciados e degustados em sua plenitude recomendam tempo e moderação. O sabor e o saber tem uma mesma origem etimológica, e nos falam não apenas daquilo que comunica diretamente a linguagem, mas daquilo que nos porta a saborear, pensar e pesar, e nos faz sentir.


A história de Jacó, José e seus irmãos faz-me lembrar com vivacidade do tempo das leituras de histórias bíblicas junto à cabeceira da cama quando criança, quando tinha o privilégio de ter minha mãe e meu pai como contadores e intérpretes. Lembro das surpresas, incompreensões e contrariedades de menino em face de histórias que tantas vezes não eram simples de aceitar e que despertavam sentimentos controversos. Histórias que falavam não apenas de bondade e benevolência, mas de ira, maldades, atos vis, erros cometidos, vícios, arrependimentos, sonhos, planos, promessas, compromissos, virtudes, desafios, perseverança, responsabilidade. Interessante destacar que permanecem mais vivas as lembranças de momentos de contação e interpretação destas histórias não tanto de quando contadas simplesmente ao pé da letra e de forma hermética, de modo a meramente transmitir uma mensagem do que era o certo a fazer ou a perseguir ou do que afinal era ou deveriam ser as derradeiras verdades; mas, sobretudo, de quando, por uma especial vocação daqueles que eram os contadores, intérpretes ou interlocutores, evidenciavam a complexidade, as contradições, a ambivalência ou polivalência de sentidos implicados. O que se descobria lentamente e projetava pelo caminho trilhado das histórias era então parte de um universo muito rico e caracterizado pelo pluralismo, pela diversidade de experiências e pela multiplicidade de perspectivas, principalmente no que diz respeito às dificuldades, aos desafios e às grandes alegrias da convivência.


A leitura, o estudo e o diálogo são dimensões fundamentais a serem exploradas para que possamos bem conviver. E no que diz respeito ao esforço contínuo para conhecer e descobrir as maravilhas deste nosso universo, por certo com tantas mazelas, dificuldades, desafios e sonhos, projetos, promessas, mais importante do que querer transmitir supostas verdades é reconhecer as implicações de uma complexidade caracterizada pelo pluralismo, é isto ao mesmo tempo em que somos capazes de reconhecer fragilidades, potencialidades e limites e de estabelecer condições de convívio, respeito e confiança recíproca. Neste contexto se encaixam e são suscitadas tantas reflexões.


Volto agora ao texto de Thomas Mann. É grandiosa esta história de “José e seus irmãos” que nos foi legada por Mann, e que sem sombra de dúvida, além de reconstituir paradigmas da civilização antiga, utiliza deste contexto retratado para traçar um vigoroso retrato da natureza humana, da complexidade e dos inúmeros desafios da convivência, assim como destaca a importância de caminhos e planos que não trilhamos sozinhos e que não podemos de todo dominar. Ao mesmo tempo, de modo sinuoso e perspicaz, tem o condão de evidenciar a relevância de se superar o desejo primitivo e primevo de vingança e de unir reflexões que cotejam sobre os sentidos da justiça com os valores do aprendizado e do desenvolvimento em relação aos erros (próprios e alheios), do reconhecimento da alteridade e de perspectivas múltiplas, do arrependimento e do perdão.


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